segunda-feira, 4 de maio de 2015

Educar e dar educação são tarefas opostas: educar é ensinar como encontrar a verdade; dar educação, como escondê-la. Mas como lidamos com essa contraditória tarefa diariamente imposta de educar e dar educação?

Daniel Martins de Barros(*)

Dar educação é algo muito diferente de educar. Na verdade, é o oposto. Educar é ensinar como encontrar a verdade; dar educação é ensinar como escondê-la. Educar é promover o desenvolvimento do raciocínio, estimular a capacidade crítica, encorajar o aprofundamento nas questões. Dar educação é ensinar a não falar o que se está pensando, não apontar o que se está vendo, não se alongar em assuntos impertinentes. Educar cria gente incômoda. Dar educação cria gente acomodada. Mas ambos são necessários.
Não seria possível – ou de meu ponto de vista, desejável – criarmos uma sociedade de gente “sem educação”. Não gosto que soltem pum na minha frente, mas se acontecer de eu soltar, não quero que comentem. Nem todas as verdades podem ser ditas para o bem da harmonia entre as pessoas. Não é prudente andarmos desafiando as leis de trânsito. Mas paradoxalmente, um bando de gente absolutamente educada teria dificuldade de promover avanços na sociedade. A lei, a ordem, as regras, são essencialmente conservadoras: por definição, elas existem para manter as coisas como estão. A obediência total seria paralisante. E perigosa: é famoso o exemplo dos carrascos nazistas levados a julgamento que se defendiam dizendo que estavam apenas cumprindo ordens, sendo obedientes. Mesmo os juízes alemães que condenaram judeus baseados em leis que hoje nos parecem absurdas alegavam, posteriormente, que só estavam cumprindo a lei – não para isso que serve um juiz? – perguntavam. Veja como também é preciso saber desobedecer.
Os pais e professores sabemos muito bem disso tudo. Mas como lidamos com a contraditória tarefa diariamente imposta de educar e dar educação ao mesmo tempo? Tentamos desesperadamente desviar o olhar dos nossos filhos e alunos do ponto essencial – a possibilidade de questionamento – para a questão colateral de qual é a fonte das regras. Mais ou menos assim: se sou “eu” ou alguma “autoridade” que está falando, obedeça; se são as “suas companhias”, questione. Claro que isso se sustenta por pouco tempo. Uma vez que a objeção se torna uma ferramenta, seu alcance deixa de ser controlável.
Existe uma solução, mas ela é trabalhosa. Em primeiro lugar poderíamos aceitar a realidade desse paradoxo, ensinando aos jovens desde logo que tudo pode ser questionado. O medo que nos assola nesse momento é o da perda de poder: e se eles resolverem questionar tudo? Seremos capazes de justificar todas as regras? Será a anarquia? Não necessariamente, se também transmitirmos os fundamentos da vida em sociedade: a dignidade absoluta da vida humana, o exercício da empatia, o consequente respeito ao próximo. Esses aspectos, contudo, não são simplesmente “ensináveis”; antes, são assimilados pela observação. Então, só mesmo construindo esse “ethos educado” é que podemos “dar educação”. O escritor americano Alfie Kohn chama essa postura de “rebeldia reflexiva” – quer se rebelar? Tudo bem, mas justifique racionalmente o porquê.
Difícil, não é? Tão mais fácil dizer “Porque eu estou mandando”, ou “Porque senão a polícia prende”. Tão mais complicado buscar o discernimento do certo e do errado, para além das normas, mantendo o foco no outro. Mas não vejo outra saída. Pois como disse Jean Jaurès: “Ninguém ensina o que sabe. Ninguém ensina o que quer. Só se ensina o que se é”.

(*) é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em Ciências e bacharel em Filosofia, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).

Publicado em Estadão

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